Uma, duas, três, quatro. Quatro décadas e quatro anos passados eis-me preso à neutralidade da capicua, no limiar da aproximação por defeito ao cinquentenário.
À medida que envelhecemos o pragmatismo assenhora-se do pensamento e subjuga a acção. Sim, tornamo-nos mais pragmáticos, mais crus, mais cruéis até.
Penso que há uma linha imaginária, milimetricamente desenhada em paralelo à linha que evidência os sulcos que se apoderam da pele e lhe tiram elasticidade, ao curvar da coluna ao peso do tempo, à dor que se exprime nos movimentos mais ousados, em suma, à decadência física, Essa linha, manifesta em paralelo, despudoradamente, a decadência dos sentidos, dos afectos, das emoções, das paixões. Perde-se inocência, ganha-se astúcia, frieza, calculo. Esvai-se o heroísmo e acolhe-se a cobardia. Troca-se o imprevisto pelo conforto do previsível.
Eu luto. Todos os dias. Com maior ou menor fulgor contra esta decadência que o tempo parece impor. O repto é voltar a resgatar a ingenuidade, repetir o prazer das conversas inúteis, voltar a sentir o arrepio na espinha, voltar a encher o peito de paixão, renovar forças, não desistir, encontrar a eternidade no além de mim.
“Conhecer é lembrar.” A frase que encontrei hoje numa parede, fez um apelo profundo ao que de mais consciente existe em mim para não me esquecer de viver.
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