por Gualter Pereira

[
[
[

]
]
]

O Huguinho gosta de ir ao parque. Gosta de ver os patinhos entretidos no lago e de correr por entre os escorregas, os cavalinhos e as outras crianças que utilizam o espaço. E eu gosto de o levar lá, sobretudo pelo prazer de o ver eufórico durante as brincadeiras e no auge de um cansaço alegre, quando regressa a casa.
Hoje foi dia de ir ao parque no final da tarde. Aproximava-se então o ritual frequente na nossa já madura ligação pai-filho: brincadeiras no parque-infantil, visita aos patinhos, regresso ao escorrega, baloiço e afins, numa espécie de “encore” de fim de concerto de rock.
Constato que o parque tinha sido engolido pelas barracas, tendas e demais parafernália de uma feira de artesanato que se inicia por estes dias. Ao fundo, um palco vaidosamente chamado de principal, onde se adivinham os momentos musicais das noites do certame. E de lá vem um som reconhecível e que apela à distância remota da minha idade adolescente. Então, deparo-me positivamente pasmado com o “sound-check” dos lendários Jafumega, banda portuense que fez furor por todo o país, há trinta anos.
Depois de levar o Huguinho a ver os patinhos, ficamos entretidos a ouvir e a par da surpresa de revisitar alguns temas daqueles longínquos anos 80, vem a constatação de que o meu filho está a vibrar e a adorar.
É na última música daquele ensaio de som que se dá a epifania. O Hugo imita o bater de palmas e mãos no ar do Luís Portugal com perfeita sincronia e com tal excentricidade que atrai a atenção do mesmo, que surpreso sorri, aponta para nós e acena. O Hugo não desarma e eu dou comigo a pensar que a minha esperança num mundo melhor tem razões para fazer caminho.
Eu explico: o meu conceito de “esperança num mundo melhor”, é altamente enviesado e está contaminado de egoísmo e preconceito. Consiste em perceber que o Hugo gosta de boa música e gosta da música de que eu gosto. Um mundo com boa música é no fim de contas um mundo muito melhor. Haja esperança!
Um mundo melhor é também aquele em que os seus músicos e artistas ao fim de trinta anos de carreira, conseguem distinguir ao longe uma criança que vibra com a sua música e são sensíveis a isso.
A esperança só vale quando nos olha de frente e expõe as suas evidências. Neste final de tarde do primeiro dia de Agosto de 2015, essa esperança não apenas foi percebida. Ela teve a audácia extravagante de se cruzar inequivocamente no meu caminho.

Deixe um comentário