por Gualter Pereira

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Os resultados das recentes consultas populares em vários países do mundo ocidental levam-nos a desconfiar do desaparecimento de uma característica que tínhamos como garantida, cada vez que a voz do povo era chamada a pronunciar-se: o bom-senso, ou se quisermos a moderação tantas vezes atribuída às vontades colectivas.

 

Sucede que vivemos tempos difíceis e conturbados, já o sabemos. Quando alguém é colocado em situações extremas de insegurança e risco, o bom-senso tende a ser substituído pelo instinto de sobrevivência. Em tempos assim, são servidos pratos cheios de ideais populistas temperados pelo saudosismo de glórias passadas, ódio cego e egoísmo exacerbado. É neste contexto que as pessoas são levadas a escolher os seus governantes, os destinos ou opções de futuro.

 

Ora, se a escolha do povo já não soluciona nem desbloqueia problemas e impasses políticos, o raciocínio imediato, tentador e perigoso, é que, talvez exista demasiada responsabilidade nas mãos de um povo que nem sempre estará em condições para decidir. Esta é uma ideia perigosa e tentadora, repito, que ganha corpo e que escuto cada vez mais, quer em conversas de amigos, quer esboçada em líderes de opinião.

Insistir num certo obsoletismo do voto popular, julgando-o insistentemente, denegrindo e amaldiçoando as escolhas que se tomam através dele, é no meu entender, dar lenha para a fogueira onde se quer ver arder a cultura democrática ocidental, essa essência da pacífica e sã convivência entre indivíduos e nações.

 

Pior do que isso, esse procedimento ataca não o problema mas a sua vítima. O obsoleto está do lado de quem alimenta as multidões ávidas de segurança e protecção com o prato ideológico requentado do populismo, do situacionismo, do rancor, do pragmatismo financeiro sem compaixão nem humanidade.

 

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