Decidimos ir ao parque. Tinha estado um dia de sol e calor, mas o fim de tarde mais fresco afigurava-se perfeito para uma partida de futebol entre pai e filho. Daquelas em que as regras estão constantemente a ser alteradas, os golos nem sempre valem, e que o progenitor perde obrigatoriamente sob pena de ter de aturar uma birra medonha.
O jogo estava entretido como se diz no futebolês, mas parou repentinamente.
Um ladrar grave e ameaçador, e um vulto de um corpulento Rottweiler que corre em direcção à bola, faz o meu filho correr também para os meus braços numa aflição sem fim.
Irrompem duas adolescentes despreocupadas que, no meio de risadas, retiram a bola da boca do cão e a devolvem sem um pedido de desculpa. Perante a minha critica, pelo facto de não estarem a passear o canídeo com a devida trela ou açaime, uma delas atira-me com duas frases letais: “Eu conheço o meu cão…” e “Confio mais no meu cão do que em muitos seres humanos…”
Duas frases, duas sentenças: A primeira, uma ilusão e um circunstanciar leviano. A segunda, uma insensatez desumana, uma generalização idiota.
Já, em outros contextos, ouvi vezes de mais estas duas frases. Revelam uma tendência que cresce e toma conta do espaço publico. Revelam indiferença para com os que já foram vítimas das mandibulas dos tais seres confiáveis. Revelam desprezo pela responsabilidade que o conhecimento e a confiança requerem, quer se refiram a animais ou seres humanos.
Não menina tola. Tu não conheces o teu cão. Nem do alto da tua soberba ignorância púbere te conheces a ti mesma.
Quão triste e desesperançada é já a tua tao curta existência, que te leva a dizer que confias mais no teu cão do que em mais alguém.
Pobre menina.
Pobre cão que nem imagina que está ao sabor das levianas frases feitas e dos humores inconstantes da sua dona.
O jogo, esse seguiria, mas não mais entretido. O sobressalto da impunidade alheia ceifou a beleza do momento.
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