por Gualter Pereira

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Da varanda olho para a rua deserta. O olhar cai na varanda em frente. Portas abertas convidam o sol e a vida a incluírem aquele lar na sua rota certeira. Um enorme relógio domina a parede da sala. Daqueles relógios à antiga que parecem uma torre de igreja em madeira, e que vão do chão ao tecto. Um móvel cuja imponência, diz tudo sobre a importância do tempo, sobre o seu compassado e inevitável avanço, alheio à urgência dos dias e aos temores do porvir.
Um velhinho da casa acerca-se e, com uma pequena escada, cuidadamente, alcança o topo do relógio, acerta-o para a hora de verão, num acto que tem tanto de apelo ao regresso de uma normalidade que nos tem fugido por entre os dedos, como de declaração de que ainda estão nas nossas mãos, os processos que corrigem o fluir do tempo e o adequam à medida dos homens. Um gesto que contém a evidência clara de que prevalece o essencial. Das alegrias aos temores essenciais, das rotinas às relações vitais, está decretada a proeminência do que é basilar e fundamental.

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