
Perco-me muitas vezes a observar as pessoas e as suas conversas, e a tentar desvendar o seu mundo de pensamentos para além do tangível. Não que seja um invasor de confidencialidades, ou um perseguidor de imaginações alheias motivado por um prazer sinistro qualquer.
O que me interessa é perceber que dimensões e camadas de transcendência são colocadas no roteiro das ideias e diálogos de cada um.
Por vezes as pessoas parecem remetidas à espuma dos dias, ficam entretidas na concepção de estratégias para alcançar objectivos, sejam eles o da mera sobrevivência, da satisfação pessoal garantida, sejam aqueles que os colocam em lugares de destaque, na crista da onda, à sombra da aceitação da comunidade onde se movimentam. Decifrar o metafísico, oprimido no betão armado das conversas e pensamentos cheios do que é concreto, é um desafio que me entusiasma.
O sistema de vida prática que nos domina, sufoca vertentes que não sejam aquelas que conduzem a dois movimentos constantes: produzir e consumir. A justificação para cada acto e reflexão está subjugada a esta premissa. Canalizamos para ela os esforços de uma vida, valorizamos cada progresso no sentido de satisfazer a engrenagem que a facilita.
No entanto, a vida propõe-se ir além da corrida por uma “pole-position”, um lugar à frente nas consecutivas grelhas de partida a que estamos expostos diariamente. É crucial apurar o tempo que cada um emprega em descobrir-se a si mesmo, perceber em que labirintos de convicções nos embrenhamos, analisar o que estamos aqui a fazer, que sentido há nas embirrações e teimosias da nossa estimação.
É fundamental dar o passo além da tal espuma dos dias e da tangibilidade pragmática. Pode parecer uma inutilidade, uma extravagância, mas no limite, e, no fim das contas é o essencial a que podemos aceder. Encontrar o transcendental nos momentos ordinários da vida é o que dá intencionalidade à nossa existência.
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