
Nos últimos passos do ano, e quando lá ao fundo, já se antecipa o acender de luzes de um cenário novo e esperançoso, há sempre a tentação de olharmos para o que foi o correr dos trezentos e muitos dias que ficam para trás, e o que mais marcou o nosso quotidiano neste período.
Quero fazer a ressalva de que o que direi não traz nenhuma pretensão de distanciamento ou superioridade moral. A apreciação que faço é em grande parte motivada pela observação dos meus comportamentos e pelos dilemas que se levantam à minha identidade.
A minha epifania de 2020 dá-se na percepção de que as conversas de elevador (aquelas que com a música do mesmo, preenchem de inutilidade os silêncios incómodos, quando o espaço e a proximidade das pessoas são inversamente proporcionais à familiaridade que temos com elas), dizia eu, as conversas de elevador, deixaram o recôndito espaço que lhes dá nome e assaltaram todo o território público das nossas interacções.
Se estivermos atentos, logo perceberemos que os nossos dias acumulam “conversas de elevador” consecutivas, inconsequentes e muitas vezes cansativas. São, no limite, conversas perversas, porque dão exposição a outra realidade, que é a de nos dizer que, em geral, nada queremos uns dos outros, além da simulação da empatia, premeditando a utilidade que possa advir de uma superficial boa impressão. A construção de um espaço de impessoalidade, que ocasionalmente extrai pendor de pessoalidade na intriga bisbilhoteira, seca tudo à nossa volta, e leva-nos muitas vezes ao caminhar solitário em ruas vazias de norte.
Tendemos a valorizar a ilusão do conforto envolvente do ruído, para calar os silêncios incómodos e facilitar a fuga à meditação interior e à partilha com significado. A arena das redes sociais, grupos de whatsapp e afins, ultimamente muito elogiados por nos concederem acesso fácil à comunicação em tempos pandémicos, amplifica este bem-estar forjado. Tal como numa conversa de elevador, é lá que fazemos a busca incessante pelo poder de tracção e atracção dos likes ao riso fácil e à indignação instantânea, desde que estes sejam suficientemente inconsequentes e nos alimentem a auto-estima com artificialidade.
Esforço-me para ultrapassar a minha habitual repulsa aos balanços e resoluções desta época. Se comecei este texto à laia de balanço, ouso terminá-lo com um desejo. Que 2021 nos traga conversas cheias de significado, que nos desafiem e alimentem saudavelmente e nos proporcionem oportunidades para espalharmos humanidade de carne e osso, desenvolvendo uma solicitude autêntica no caminhar da sociedade e do “Outro”. Que o façamos para além dos nossos interesses particulares e muitas vezes em oposição a estes. Que fiquemos muitas vezes presos no tal elevador, mas libertos da banalidade, atraídos pelo teor das conversas e pela troca de experiências de vida.
Saibam que para mim já quase só faz sentido o ápice do encontro com pessoas que tenham gente dentro.
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