por Gualter Pereira

[
[
[

]
]
]

nse-2182764544098034544-2329.jpg

Nos últimos passos do ano, e quando lá ao fundo, já se antecipa o acender de luzes de um cenário novo e esperançoso, há sempre a tentação de olharmos para o que foi o correr dos trezentos e muitos dias que ficam para trás, e o que mais marcou o nosso quotidiano neste período.

Quero fazer a ressalva de que o que direi não traz nenhuma pretensão de distanciamento ou superioridade moral. A apreciação que faço é em grande parte motivada pela observação dos meus comportamentos e pelos dilemas que se levantam à minha identidade.

A minha epifania de 2020 dá-se na percepção de que as conversas de elevador (aquelas que com a música do mesmo, preenchem de inutilidade os silêncios incómodos, quando o espaço e a proximidade das pessoas são inversamente proporcionais à familiaridade que temos com elas), dizia eu, as conversas de elevador, deixaram o recôndito espaço que lhes dá nome e assaltaram todo o território público das nossas interacções.

Se estivermos atentos, logo perceberemos que os nossos dias acumulam “conversas de elevador” consecutivas, inconsequentes e muitas vezes cansativas. São, no limite, conversas perversas, porque dão exposição a outra realidade, que é a de nos dizer que, em geral, nada queremos uns dos outros, além da simulação da empatia, premeditando a utilidade que possa advir de uma superficial boa impressão. A construção de um espaço de impessoalidade, que ocasionalmente extrai pendor de pessoalidade na intriga bisbilhoteira, seca tudo à nossa volta, e leva-nos muitas vezes ao caminhar solitário em ruas vazias de norte.

Tendemos a valorizar a ilusão do conforto envolvente do ruído, para calar os silêncios incómodos e facilitar a fuga à meditação interior e à partilha com significado. A arena das redes sociais, grupos de whatsapp e afins, ultimamente muito elogiados por nos concederem acesso fácil à comunicação em tempos pandémicos, amplifica este bem-estar forjado. Tal como numa conversa de elevador, é lá que fazemos a busca incessante pelo poder de tracção e atracção dos likes ao riso fácil e à indignação instantânea, desde que estes sejam suficientemente inconsequentes e nos alimentem a auto-estima com artificialidade.

Esforço-me para ultrapassar a minha habitual repulsa aos balanços e resoluções desta época. Se comecei este texto à laia de balanço, ouso terminá-lo com um desejo. Que 2021 nos traga conversas cheias de significado, que nos desafiem e alimentem saudavelmente e nos proporcionem oportunidades para espalharmos humanidade de carne e osso, desenvolvendo uma solicitude autêntica no caminhar da sociedade e do “Outro”. Que o façamos para além dos nossos interesses particulares e muitas vezes em oposição a estes. Que fiquemos muitas vezes presos no tal elevador, mas libertos da banalidade, atraídos pelo teor das conversas e pela troca de experiências de vida.

Saibam que para mim já quase só faz sentido o ápice do encontro com pessoas que tenham gente dentro.

9 respostas

  1. Avatar de Humorosa

    Senti cada palavra dentro da humana que habita dentro de mim.Ainda ontem comentava que a trivialidade e os croquetes tinham invadido as pessoas que me parecem estar esgotadas do mundo e delas próprias.E se por um lado esta situação se explica do ponto de vista neurocientífico, que nos diz que quando as pessoas estão com sistema nervoso simpático completamente ativado, e por isso em modo “fight or flight”, acontece um sequestro neural que rouba a capacidade da nossa parte cognitiva de laborar e elaborar conversas mais profundas, raciocínios e introspecções, por outro é triste que as pessoas não se esforcem para sair desse elevador diário quando no fundo eu sei que sentem que gostariam de uma existência com mais sabor, com mais alma, com mais “encontros com pessoas que tenham gente dentro”.Um excelente 2021 e bora lá dar início a esta partilha enciclopédica de música. Tu tens gente com música dentro, e eu também, e a pandemia faz aproximar pessoas que tenham vontades e ápices de encontros com almas dentro.

  2. Avatar de infp
    infp

    Gostava muito de me saber expressar assim.Tal como a Humorosa, senti cada palavra.

  3. Avatar de gualter pereira

    Obrigado pela clarividência cheia de pragmatismo que trouxeste. Vale a pena a partilha aqui, quando somos enriquecidos desta forma. ‘Bora lá a um 2021 cheio de partilhas enciclopédicas de música e de tudo o que nos vai na alma.

  4. Avatar de gualter pereira

    Obrigado pela visita e pelas palavras. Seguir-te, é sinal de que aprecio igualmente a tua forma de expressão.

  5. Avatar de Humorosa

    Obrigada 🙂 Quanto à partilha… BRING IT ON!Para hoje: https://www.youtube.com/watch?v=CmP59XcbjW8 (atenta na letra que acho que vais amar.)

  6. Avatar de Ana D.

    Muito obrigada pela partilha. Adorei o desejo para 2021 na forma da escrita e do conteúdo e concordo em absoluto com a última frase, pois de facto, acho que só faz sentido encontrar pessoas com gente dentro

  7. Avatar de gualter pereira

    Obrigado pela visita. Encontremos pois, ao longo do ano, muitas pessoas com gente dentro.

  8. Avatar de Isa Nascimento

    Os bons assuntos são sempre bons assuntos, e os textos bem escritos permanecem pertinentes.Partilho destes sentimentos Gualter, também desejo mais autenticidade, mais ser e menos parecer, dentro e fora do elevador!Grata por esta leitura tão cativante.

  9. Avatar de gualter pereira

    Grato pela visita e pelas palavras tão bonitas. Sejamos então!

Deixe um comentário