
As ruas da pequena cidade eram o seu palco de actuação. Diariamente, procurava e percorria sem descanso as mais movimentadas e cheias de gente. Tornara-se um especialista em marketing, sempre atento à melhor oportunidade, para abordar a multidão indiferente e apressada que compunha a paisagem urbana.
Quem à nascença lhe atribuiu o nome não percebeu a carga de missão nele contida. Terá sido uma ânsia profética, na tentativa de manipular o destino, indicando-lhe um propósito. Mas as intenções não são mais que isso: intenções. A crua realidade não se comove com profecias, nem com nomes cheios de intenções grandiosas. A realidade, numa torrente furiosa, despejou-o na miserável condição de pedinte, sem ele perceber como tudo aconteceu. O corpo esguio, o olhar inquieto, o cabelo rebelde, a pele tostada pelo sol, denunciavam o seu estatuto, mas nunca o seu nome. Quem se cruzasse com ele imaginaria talvez um Zé-Ninguém, indigno sequer de um olhar atencioso.
Naquela manhã, ele fazia o percurso costumeiro e sentia uma especial sonolência e enfado. Era mais um dia na negação constante da profecia contida no nome que lhe dava a identidade, a comprovar o cativeiro à mercê da fatalidade irreversível. Um grito lancinante despertou-o da letargia, e, de súbito, viu-se como a pessoa mais próxima do encontro inevitável entre uma criança inadvertida e um automóvel impiedosamente letal. Num gesto rápido e certeiro, lançou o braço heróico que deteve o petiz e o salvou da tragédia anunciada. Ficou ali, agarrado àquela criança, paralisado pelo pensamento do que poderia ter presenciado. A multidão, antes indiferente, acorreu e rodeou-o com olhar de admiração.
— Como te chamas rapaz?
— Salvador… — Respondeu ainda com a voz abalada.
Aquele foi o momento que preencheu o espaço vazio entre a profecia e o seu cumprimento. O propósito, afinal, tinha um nome.
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