por Gualter Pereira

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As ruas da pequena cidade eram o seu palco de actuação. Diariamente, procurava e percorria sem descanso as mais movimentadas e cheias de gente. Tornara-se um especialista em marketing, sempre atento à melhor oportunidade, para abordar a multidão indiferente e apressada que compunha a paisagem urbana.

Quem à nascença lhe atribuiu o nome não percebeu a carga de missão nele contida. Terá sido uma ânsia profética, na tentativa de manipular o destino, indicando-lhe um propósito. Mas as intenções não são mais que isso: intenções. A crua realidade não se comove com profecias, nem com nomes cheios de intenções grandiosas. A realidade, numa torrente furiosa, despejou-o na miserável condição de pedinte, sem ele perceber como tudo aconteceu. O corpo esguio, o olhar inquieto, o cabelo rebelde, a pele tostada pelo sol, denunciavam o seu estatuto, mas nunca o seu nome. Quem se cruzasse com ele imaginaria talvez um Zé-Ninguém, indigno sequer de um olhar atencioso.

Naquela manhã, ele fazia o percurso costumeiro e sentia uma especial sonolência e enfado. Era mais um dia na negação constante da profecia contida no nome que lhe dava a identidade, a comprovar o cativeiro à mercê da fatalidade irreversível. Um grito lancinante despertou-o da letargia, e, de súbito, viu-se como a pessoa mais próxima do encontro inevitável entre uma criança inadvertida e um automóvel impiedosamente letal. Num gesto rápido e certeiro, lançou o braço heróico que deteve o petiz e o salvou da tragédia anunciada. Ficou ali, agarrado àquela criança, paralisado pelo pensamento do que poderia ter presenciado. A multidão, antes indiferente, acorreu e rodeou-o com olhar de admiração.

— Como te chamas rapaz?

— Salvador… — Respondeu ainda com a voz abalada.

Aquele foi o momento que preencheu o espaço vazio entre a profecia e o seu cumprimento. O propósito, afinal, tinha um nome.

4 respostas

  1. Avatar de simplesmente...
    simplesmente…

    Li e gostei do que li.Parabéns.

  2. Avatar de gualter pereira

    Obrigado pela visita e pelo comentário. Volte sempre!

  3. Avatar de Humorosa

    Se essa cena tiver sido presenciada por ti (sendo ela real no sentido factual) que murro no estômago que levaste e que transcendência em simultâneo. Mais uma vez as tuas palavras derretem-se na minha boca como um chocolate que se quer saborear apenas um quadradinho para sentir a suavidade e todos os sentidos neles contido. Voltei 🙂

  4. Avatar de gualter pereira

    Viva! A cena relatada é fruto de observações diárias de gente que é colocada às margens e que é rotulada como parasita e dispensável. Muito feliz com o teu regresso. Fiquei genuinamente lisonjeado com as tuas palavras. Acautelando a saúde dos meus leitores estou a pensar em usar palavras com chocolate sem açúcar.

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