por Gualter Pereira

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Venho aqui deixar uma sugestão ousada. Proponho a candidatura da raspadinha a desporto olímpico. No fundo, trata-se de uma espécie de “mini curling” localizado. Em vez de esfregarem um chão impecavelmente encerado, os seus praticantes raspam com igual mestria um pedaço de cartão polido. Não faltam entre nós adeptos dedicados, capazes de engordarem o pecúlio medalhístico da nação, num próximo certame olímpico.

Quando saio para o habitual passeio higiénico, não consigo desviar o olhar do detalhe que contrasta com o panorama desértico das ruas e da quase totalidade das lojas fechadas. Pequenas aglomerações de praticantes do raspanço pendurados nas entradas dos quiosques, num equilíbrio prodigioso entre a perícia e o empenho, dedicam-se convictamente àquela prática. 

Até ao momento não se prova que estes ajuntamentos causem vagas de contágio pandémico. E, se assim é, demonstra-se que se trata de um desporto. A prática de desporto é aconselhada desde o início da pandemia pelas autoridades de saúde, como medida de prevenção e reforço da imunidade. Afinal, estes briosos praticantes do luso “mini curling” são valentes desafiadores do bicho que nos assola e estão protegidos pela aura atlética.

Quem acha esta proposta de “mini curling” idiota e impraticável, nunca passou um par de horas divertidas a meter bolas nos buracos de um dos inúmeros circuitos de mini golfe, que pululam nos equipamentos de lazer espalhados pelo país. O facto de ser mini, neste caso, não lhe retira predicados. Proponho então que se façam dos quiosques do nosso país, locais de interesse desportivo e de lazer, para que o exercício do “mini curling” lusitano se consolide e expanda.

Em caso de necessidade utilizem-se os espaços das livrarias fechadas para a prática deste novel desporto. Mas cuidado… não se toque nos livros. Esses sim, são meios de contágio perigoso, inutilidades que nem em desporto se conseguem converter.

8 respostas

  1. Avatar de Humorosa

    Tu és incrível. Ainda ontem no meu passeio higiénico por Lisboa observei o mesmo fenómeno. Claro que não o descrevi com a mesma mestria com que o fizeste aqui. Na verdade és um mago da escrita, tornas mágica a transformação de fenómenos em palavras portentosas e dotadas de brilho que deliciam qualquer leitor. Até o mais amorfo. Só por causa disso, digo-te que sou adepta desse mini curling em honra ao meu avô que pedia sempre um café e uma raspadinha. Ontem na minha observação desse aglomerado atlético pensei que andava a falhar para com ele. E só por causa disso hoje vou comprar uma.Para acompanhar esse fenómeno envio-te aquela que poderia ser a banda sonora deste novo desporto: https://www.youtube.com/watch?v=9jK-NcRmVcwIsto porque há um sentido épico na missão de raspar até ao fim. É quase um contra-relógio. Só um aficionado compreende

  2. Avatar de Francisco Carita Mata

    De acordo! E muita saúde e desporto… sem raspadinha.

  3. Avatar de gualter pereira

    Ahahahaha…mago da escrita, nunca tinha sido brindado com esse epiteto, muito bom…só que não!!! De resto, se te sair uma quantia jeitosa na raspadinha, lembra-te deste teu amiguinho.

  4. Avatar de gualter pereira

    Com ou sem raspadinha tanto faz. O importante é sentirmo-nos bem e saudáveis. Obrigado pela visita e comentário.

  5. Avatar de cheia

    Totalmente de acordo! A raspadinha foi elevada a património, com a criação de mais uma raspadinha. Não precisamos de ler, ir ao teatro, cinema, museus, basta comprar a raspadinha para ajudar a cultura.Boa noite!

  6. Avatar de gualter pereira

    Também é uma bela perspetiva: raspadinha a património da humanidade! Obrigado e boa noite!

  7. Avatar de Humorosa

    Ontem tive um dia de merda e não joguei. Vou tentar hoje. Wish me luck e sim, vou lembrar-me de to

  8. Avatar de Etc...
    Etc…

    Muito bem visto

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