Para os anais da História ficarão estes dias. Os dias imensos de perplexidades e embates aguerridos. Dias em que as narrativas se multiplicam como se fossem as minúsculas artérias da malha urbana citadina. Cada pessoa tem a sua história, a sua construção de convicções e o seu imaginário, o seu contexto e os seus ideais, o caminhar dos seus intentos.
Sentado na esplanada, ele dedicava-se recorrentemente a uma actividade que lhe transmitia um sentimento de poder clandestino. Imaginava-se omnisciente e adivinhava o destino e a rota de cada transeunte. Fazia-o estudando os trejeitos, as escolhas de indumentária, as expressões do rosto, os modos de caminhar. Sim, cada coreografia de passos contava uma história: um coxear revelaria uma mazela da vida, um passo firme desvendava vontades sólidas, uma dança do andar expunha o despontar de uma euforia. Ele deliciava-se com a interpretação de cada esgar e cada gesto, projectando o seu significado.
Na análise, ousava adivinhar histórias, narrativas, intenções, destinos imediatos e propósitos de longo alcance. Assim mesmo. Escolhia uma pessoa de cada vez, fixava-a durante os segundos em que esta permanecia no seu perímetro visual e construía a sua tese. Fascinava-se com a multiplicidade de cenários e escolhas de vida que lhe era apresentada, de cada vez que se embrenhava nesta abstracção, por constituir o respaldo que negava a polarização binária imposta pelos discursos amplificados daqueles dias. As especificidades que ele mirava organizavam-se em gradações complexas de matizes ricas e diferenciadas. Ainda que por vezes lhe despontasse uma agonia misericordiosa, ao decifrar um quotidiano mais infeliz, a diversidade das dinâmicas humanas deveria servir para anular as descompensações e os ciclos menos bons das existências, pensava ele. Nem tudo seria mau em todo o tempo.
Um ruído indeterminado destacado do burburinho regular, fazia-o despertar da tarefa. Então, olhava o relógio, franzia a testa por não compreender como os minutos tinham corrido tão depressa e saia daquela alienação. Prosseguia num trajecto inventado de firmeza e intencionalidade até que, aproveitando um qualquer motivo, ficava imóvel. Num gesto repentino olhava para trás e expunha-se a um olhar casual que o fitasse. E implorava, em lancinantes gritos interiores, que alguém o olhasse com a mesma intenção de o interpretar magistralmente, mudando-lhe o destino, num acrescento de certezas e propósito.
Deixe um comentário