por Gualter Pereira

[
[
[

]
]
]

Para os anais da História ficarão estes dias. Os dias imensos de perplexidades e embates aguerridos. Dias em que as narrativas se multiplicam como se fossem as minúsculas artérias da malha urbana citadina. Cada pessoa tem a sua história, a sua construção de convicções e o seu imaginário, o seu contexto e os seus ideais, o caminhar dos seus intentos.

Sentado na esplanada, ele dedicava-se recorrentemente a uma actividade que lhe transmitia um sentimento de poder clandestino. Imaginava-se omnisciente e adivinhava o destino e a rota de cada transeunte. Fazia-o estudando os trejeitos, as escolhas de indumentária, as expressões do rosto, os modos de caminhar. Sim, cada coreografia de passos contava uma história: um coxear revelaria uma mazela da vida, um passo firme desvendava vontades sólidas, uma dança do andar expunha o despontar de uma euforia. Ele deliciava-se com a interpretação de cada esgar e cada gesto, projectando o seu significado.

Na análise, ousava adivinhar histórias, narrativas, intenções, destinos imediatos e propósitos de longo alcance. Assim mesmo. Escolhia uma pessoa de cada vez, fixava-a durante os segundos em que esta permanecia no seu perímetro visual e construía a sua tese. Fascinava-se com a multiplicidade de cenários e escolhas de vida que lhe era apresentada, de cada vez que se embrenhava nesta abstracção, por constituir o respaldo que negava a polarização binária imposta pelos discursos amplificados daqueles dias. As especificidades que ele mirava organizavam-se em gradações complexas de matizes ricas e diferenciadas. Ainda que por vezes lhe despontasse uma agonia misericordiosa, ao decifrar um quotidiano mais infeliz, a diversidade das dinâmicas humanas deveria servir para anular as descompensações e os ciclos menos bons das existências, pensava ele. Nem tudo seria mau em todo o tempo.

Um ruído indeterminado destacado do burburinho regular, fazia-o despertar da tarefa. Então, olhava o relógio, franzia a testa por não compreender como os minutos tinham corrido tão depressa e saia daquela alienação. Prosseguia num trajecto inventado de firmeza e intencionalidade até que, aproveitando um qualquer motivo, ficava imóvel. Num gesto repentino olhava para trás e expunha-se a um olhar casual que o fitasse. E implorava, em lancinantes gritos interiores, que alguém o olhasse com a mesma intenção de o interpretar magistralmente, mudando-lhe o destino, num acrescento de certezas e propósito.

4 respostas

  1. Avatar de Humorosa

    Que magistral reflexão de olhos que poderiam ser os meus. Deparo-me muitas vezes no mesmo exercício de tapeçaria como que procurando encaixar cada ser nesta teia que é a vida e que quando olhada individualmente traz uma miríade de vivências, cores, texturas, e riqueza. E está tudo tão certo ao mesmo tempo que sentimos por vezes a tristeza de alguém a quem provavelmente a vida foi aparentemente madrasta. Mas voltando a olhar a tapeçaria total é como se sentíssemos que apesar de tudo, a trama se entrelaça como é suposto e o tapete se desvela aos olhos de quem está preparado para o ver. E como de tapeçaria sabem os árabes, uma música para acompanhar a tecelagem deste grande tapete que somos Nós.https://open.spotify.com/track/3zYufmyv6HOuiHn1eMR6Ja?si=VmgrOVcGSymw4BL_SAwZAA

  2. Avatar de gualter pereira

    Obrigado Humorosa pelo teu comentário, que suplanta em riqueza e densidade o meu modesto texto. Gosto das cores, olhares e acessórios que plantas bondosamente aqui. Quanto à música, estás a tocar-me no ponto sensível da minha veneração pelo universo musical do senhor Sting…Obrigado!

  3. Avatar de Humorosa

    Ora Buenos diasss! Estava eu perdida nas minhas organizações quando ao ouvir uma música pensei em partilhar pela força que tem e que me faz sempre sentir. Quase como se me desse certezas… quase : https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=7nqcL0mjMjw

Deixe um comentário