
Nós, que nos alimentamos de frases-feitas, que usamos o combustível das soluções milagrosas e simples, que nos distraímos com o lado bonito da existência, ficamos esmagados ao percebermos a inutilidade desta cosmovisão macia, perante o presente agreste e fatal que se tem imposto ao nosso olhar.
Temos andado entretidos a cultivar uma atmosfera de flores perfeitas e agradáveis, a sermos treinados para a contemplação exclusiva do belo, e isso é inútil e desadequado face às demandas dos dias de realidade sombria que encaramos.
Chegados aqui, começamos a perceber a vala funda que separa o discurso perfumado de positividade romântica da realidade cruel e inevitável. Destapada fica a incapacidade gritante de responder às questões que importam.
Estes são assim, os dias que separam o trigo do joio. Estes são os dias da falência dos discursos enganadores.
Inclinemos, pois, os ouvidos na direcção dos que nos estimulam à tenacidade nua e crua, para enfrentarmos o que aí vem, em vez de nos entregarmos aos que nos distraem e alimentam em ambientes de estufa que só engordam a nossa presunção.
A esperança também nasce na combatividade.