por Gualter Pereira

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Nós, que nos alimentamos de frases-feitas, que usamos o combustível das soluções milagrosas e simples, que nos distraímos com o lado bonito da existência, ficamos esmagados ao percebermos a inutilidade desta cosmovisão macia, perante o presente agreste e fatal que se tem imposto ao nosso olhar.
 
Temos andado entretidos a cultivar uma atmosfera de flores perfeitas e agradáveis, a sermos treinados para a contemplação exclusiva do belo, e isso é inútil e desadequado face às demandas dos dias de realidade sombria que encaramos.
 
Chegados aqui, começamos a perceber a vala funda que separa o discurso perfumado de positividade romântica da realidade cruel e inevitável. Destapada fica a incapacidade gritante de responder às questões que importam.
 
Estes são assim, os dias que separam o trigo do joio. Estes são os dias da falência dos discursos enganadores.
 
Inclinemos, pois, os ouvidos na direcção dos que nos estimulam à tenacidade nua e crua, para enfrentarmos o que aí vem, em vez de nos entregarmos aos que nos distraem e alimentam em ambientes de estufa que só engordam a nossa presunção.
 
A esperança também nasce na combatividade.

4 respostas

  1. Avatar de Zé Onofre
    Zé Onofre

    Boa noite, GualterPermita que junte ao seu texto, este texto de um louco perdido.”De tempos a tempos,Malditos tempos,Gente atónita é chamada à realidade De um mundo que de sereno nada tem.De tempos a tempos,Malditos tempos,Lamentamos que mais uma vezSeja a morte a anunciar a alvorada. De tempos a tempos,Malditos tempos,Lamentamos que falsos relâmpagosQue, soltos do solo, ofusquem as estrelas.De tempos a tempos,Malditos tempos,Voltamos a um velho pesadeloDe despertarmos com a música da metralha.De tempos a tempos,Malditos tempos,Assistimos a marchas fantasmasDe gente genuína à procura do nada.De tempos a tempos,Malditos tempos,Do céu noturno chove abruptamenteA morte, ao ribombar dos canhões. De tempos a tempos,Malditos tempos,Sem sabermos o onde, nem o por quê,O fedor da pólvora, abafa o doce aroma da terra.De tempos a tempos,Malditos tempos,A gente simples é levada a acreditarQue estas são explosões únicas de pessoas loucas.De tempos a tempos,Malditos tempos,Os poderosos convencem os simples que “esta”Não é mais uma conta no rosário da Exploração”

  2. Avatar de Isa Nascimento

    É verdade, nestes momentos negros da existência só a “tenacidade nua e crua” dá força àqueles que precisam de ultrapassar experiências inimagináveis. A retórica de que a “vida nos dá o que precisamos e não o que desejamos”, entre outras, é inútil e descabida nestas circunstâncias avassaladoras.

  3. Avatar de Francisco Carita Mata

    “A Esperança criou asas…” Feliz 2025!

  4. Avatar de Debora
    Debora

    Obrigada por trazer essa escrita tão bonita para cá.

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